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A vítima crescida - nota sobre a escuta do trauma

Grupo Reinserir

A clínica tem a potente função de auxiliar, facilitar a construção ou reconstrução de um discurso, da narrativa de uma existência. Essa experiência se torna ainda mais intensa quando se trata da recuperação de um processo que fora lacerado por determinada violência. Como repetidamente costuma ser. Vivemos na sociedade do trauma (?)

Quando Ferenczi chama de “confusão de línguas” a imposição do traumático por um adulto contra uma criança, penso em:

As capacidades simbólicas desenvolvidas são absolutamente diferentes, entre os dois. E o adulto usa disso para ludibriar essa criança, a entendendo como um objeto disponível para exercer o próprio poder e controle. Aqui cabe um infinito de leituras sobre gênero e masculinidades.

Primeiro, a criança ouve do pai-abusador que aquilo é carinho. Depois, a mãe ou a vida, lhe contam que era violência. Diante disso, como não se perder na interpretação do que são as coisas, aí a “confusão” é plenamente exemplificada.

Como recontar a própria história, a partir do “eu” negado, cindido?

Como entender o que é bom para si?

O que quer, o próprio desejo…

São questões frequentes na clínica do trauma.

Aqui, nossa principal ferramenta, é atentar que aquela criança violada cresceu, e é sujeito de direitos, de desejos, medos, vontades e todas as emoções que cabem na existência humana. Aquela que outrora objetificada, é humana. E pode existir, contando e recontando a própria história.